Por Marcílio Maciel
Ele foi o primeiro brasileiro a ter um estudo publicado, por exemplo, na capa da conceituada revista americana Science. Suas pesquisas exploram a interação cérebro humano-máquina e representam um grande passo na busca para reabilitação de pacientes com paralisia ou mal de Parkinson.
Esse é o perfil do neurocientista Miguel Nicolelis. Pesquisador da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, também fundador do Instituto de Neurociências de Natal, no Rio Grande do Norte. Um dos mais avançados do mundo, nessa área.
Referência mundial em pesquisas sobre a interação entre cérebro e computadores, Miguel Nicolelis chamou a atenção do mundo pela primeira vez em 2003 quando implantou eletrodos no cérebro da macaca Aurora. Os sinais elétricos registrados pela prótese fizeram o animal mover um braço mecânico à distância.
Em 2008, o pensamento de outra macaca, Idóia, deu a volta ao mundo: enquanto ela andava em uma esteira no laboratório da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, sua atividade neural foi registrada e enviada, via satélite, ao Japão. Em Kioto, um robô de noventa quilos andou, comandado pelo pensamento de Idóia.
Outro estudo de Nicolelis propõe um tratamento mais simples e menos invasivo para o mal de Parkinson. A nova técnica foi testada com sucesso pela equipe que Nicolelis dirigiu na Universidade de Duke: próteses foram implantadas na medula espinhal de ratos, com os mesmos sintomas do mal de Parkinson. Animais paralisados pela doença tiveram a medula estimulada eletricamente e voltaram a ter movimentos normais.
De olho no Brasil, o próximo passo do conceituado cientista é finalizar um dos seus maiores sonhos: a construção de um pólo de ciência em Macaíba, próximo a Natal. Com tecnologia de ponta, o instituto quer formar jovens talentos da ciência brasileira. As idéias de Nicolelis foram notadas pela Academia Sueca de Ciências, fundação que concede o prêmio Nobel. Ainda este mês, ele apresenta um simpósio em Estocolmo, na Suécia.
“Há alguns anos o Brasil apenas exportava cientistas e pesquisadores para outros países. Hoje esses profissionais estão escolhendo o Brasil para desenvolver seus estudos”, diz o cientista.
Ele comenta sobre um projeto do governo Dilma que cria a Comissão do Futuro para a Ciência do Brasil, da qual é o seu presidente: a linha central dessa iniciativa de governo, segundo Nicolelis, é “reunir cientistas brasileiros e de todo o mundo para discutir a ciência brasileira. Os mecanismos, os processos e quais os problemas que afligem o cientista brasileiro em busca de soluções para a próxima década”.
Para Nicolelis, um dos pontos fundamentais é trazer a ciência brasileira para a sociedade civil e abrir canais de divulgação e discussão sobre o que ela pode fazer pelo país.
O cientista destaca a criação da Associação Alberto Santos Dumont para apoio à Pesquisa, testado na periferia de Macaíba. O projeto é destinado à educação científica de crianças do ensino fundamental. Esses alunos freqüentam a escola pública em meio período, e se dedicam pela manhã aos estudos em laboratórios do instituto. O índice de evasão, segundo o Prof. Nicolelis, é inferior a 1%. A escola abre às 7 e meia da manhã.
Um dado que chama atenção, atestado por ele, é que “essas crianças tiveram uma explosão de performance na escola regular”. Essa nova realidade animou o cientista a propor a idéia ao Ministro da Educação, Fernando Haddah, no sentido de estendê-la ao restante do Brasil.
O projeto piloto funciona há quatro anos, e já atendeu a cerca de mil crianças no Rio Grande do Norte. Aqui, diz ele, “a criança é protagonista do próprio ensino”.
Fala, com entusiasmo, de outro programa que vem sendo desenvolvido em Natal com 22 crianças recém chegadas ao ensino médio. Esses alunos recebem uma bolsa Jovem Cientista, que representa o maior salário da família de cada uma dessas crianças. Eles são inseridos nos laboratórios do Instituto antes mesmo de ingressarem no ensino médio.
Desse experimento, atesta Nicolelis, surgem os primeiros talentos: “algumas dessas crianças querem ser inventores; outros, empreendedores científicos”. Quatro deles trabalham em estudos na área de biodiesel para uso no semi-árido brasileiro (EMBRAPA).
Todos têm entre 14 a 16 anos. Eles são orientados por um doutor, e operam equipamentos usados por técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
Nicolelis finaliza garantindo que o talento do cientista brasileiro não fica a dever aos profissionais da área que atuam no exterior. O diferencial, segundo ele, são as condições de trabalho oferecidas em ambos os mercados.
Estudos da Física elevam conceito de Universidade
Outro destaque nessa área é o Instituto Internacional de Física – IIF. Vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, foi criado em outubro de 2009, tem o objetivo de contribuir para o desenvolvimento tecnológico e científico do País e, de forma particular, das regiões Norte e Nordeste.
A formação do Instituto de Física partiu da transferência, para seus quadros, de pesquisadores visitantes e pós-doutores do Centro Internacional de Física da Matéria Condensada da Universidade de Brasília. Seu projeto mais amplo consiste na expansão, a partir deste ano, de atividades ligadas às áreas da Astrofísica e Cosmologia, Mecânica Estatística, Teoria de Campos e Teoria de Cordas.
O professor Álvaro Ferraz, um dos coordenadores do projeto na UFRN, informa que o Instituto atua na organização de eventos científicos e de workshops de pesquisa de longa duração visando proporcionar contato permanente entre instituições de pesquisa em Física no Brasil e no resto do mundo.
A ideia, segundo Ferraz, é estimular tanto o amadurecimento acadêmico de recém-doutores quanto o desenvolvimento de estudos interdisciplinares em áreas de fronteira da Física Teórica.
Para Bernadete Sousa, Pro-reitora de Pesquisa da UFRN, o programa de iniciação científica, que só existe no Brasil, foi criado para diminuir o tempo de formação do aluno na pós-graduação, além de deixa-lo mais qualificado para o mercado de trabalho. Segundo informa, hoje a UFRN tem em torno de 1400 projetos de pesquisas sendo executados, dos quais cerca de 70% são voltados para temáticas locais.
A instituição vem investindo na parte de infraestrutura: laboratórios, prédios, equipamentos e recursos humanos. Cerca de 30 construções estão vinculadas à estrutura para a pesquisa que está sendo ampliada. Ela cita o Instituto Internacional de Física como modelo, e que foi inaugurado em 2010 para fortalecer a formação de novos quadros científicos no Brasil.
De todas as questões que fascinam o espírito humano, aquelas sobre nossa origem, de onde viemos e para onde vamos estão certamente entre as mais presentes no nosso pensamento. Esse é o campo de pesquisa de José Renan de Medeiros, Ph.D do Departamento de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Ele é autor de dezenas de artigos de divulgação científica na área de Astronomia, publicados em jornais e revistas (inclusive na Revista Galileo). Proferiu dezenas de conferências científicas e sua divulgação em congressos e similares nacionais e internacionais.
A paixão pelo céu vem da infância. Quando pequeno, ouviu de seu avô que os trovões nada mais eram que o barulho dos tambores de uma banda de anjos tocando no céu. E ouviu mais, que seus dois irmãozinhos, que morreram ainda pequenos, faziam parte dessa banda.
Essa fantasia transformou o céu no laboratório do astrônomo José Renan de Medeiros, 58 anos, hoje conhecido mundialmente pelas pesquisas que desenvolve.
Astrônomo Phd pela Universidade de Genebra e com trabalhos disputados pela Nasa e pela Agência Espacial Europeia, José Renan está longe de corresponder ao estereótipo do cientista louco e onipotente.
O trabalho desenvolvido por Renan, na busca por planetas fora do Sistema Solar, colocou o Brasil no cenário internacional de estudos astronômicos. Em 2006, o país passou a integrar a missão Corrot com uma base na UFRN, a única fora da Europa. A missão contabilizou mais de cem mil estrelas e encontrou vinte planetas fora do sistema solar, resultado anunciado em novembro de 2010.
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