terça-feira, 24 de maio de 2011

Heróis de uma luta diária pela vida

Por Marcílio Maciel

Em 2010, mais de sete milhões de pessoas no mundo morreram de câncer. Cerca de uma em cada três desenvolverão essa doença durante sua vida. Essa é a crônica de uma doença milenar, mas que representa um dos maiores problemas para a saúde pública mundial. Preocupada com essas estatísticas, a Liga Norte-rio-grandense contra o Câncer – LNCC vai colocar em funcionamento este mês, um aparelho de última geração – o tomógrafo por emissão de pósitrons – PETscan.

A máquina se junta aos dois aparelhos de tomografia computadorizada já existentes no hospital, o que vai permitir a ampliação do seu atendimento, que chega a uma média de 39 mil procedimentos por mês.

O aparelho, que custou R$ 2,6 milhões, foi adquirido através de financiamento, a ser pago com recursos próprios da LNCC. O equipamento é o primeiro do Rio Grande do Norte e Natal é a quarta cidade do país, além de Fortaleza, Recife e Salvador, a contar com essa nova tecnologia.
 
Chefe do Serviço de Medicina Nuclear da LNCC, o médico Arthur Villarim, informou que esse equipamento apareceu em escala comercial no mundo em 2003 e no Brasil chegou em 2005. O especialista explica que a diferença entre o aparelho PETscan e o tomógrafo computadorizado, é que o primeiro realiza exames de imagem do corpo inteiro do paciente, enquanto o segundo mostra especificamente os órgãos do corpo humano, durante os exames para localização e análise de tumores cancerígenos.

Villarim disse ainda que o novo dispositivo tem a vantagem de diagnosticar se determinados tratamentos estão dando certo num prazo de até quinze dias, enquanto atualmente se espera até três meses para avaliar a necessidade ou não de mudar algum tipo de medicamento.
Entre os principais benefícios que o PETscan possui, se comparado às atuais tecnologias, ele destaca a detecção precoce de tumores malignos, evitando-se assim procedimentos invasivos desnecessários. O aparelho também permite que o médico tenha uma descrição do estágio do tumor no corpo do paciente. 

Um dado da Associação Brasileira de Radioterapia, divulgado recentemente, revela que três em cada dez pacientes de câncer no Brasil não conseguem tratamento de radioterapia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O número é preocupante, mas não caracteriza a realidade existente no Rio Grande do Norte. A fila de espera existente, considerada dentro da normalidade, será reduzida até o final do ano, graças à ampliação do número de aparelhos.

Segundo o superintendente da Liga, Roberto Sales, a instituição oferece tratamento com radioterapia desde 1970, quando foi comprada uma “bomba de cobalto”. Há cerca de quinze anos, com ajuda do governo e da população, a entidade adquiriu mais dois “aceleradores lineares”.

“A chegada do PET confirma a condição de excelência da Liga Contra o Câncer. É motivo de orgulho dizer que o Rio Grande do Norte tem um dos melhores centros de oncologia do Brasil”, afirma o superintendente. Além disso, os aparelhos de ressonância magnética e ultrassonografia para tratamento oncológico também merecem destaque. Outro exemplo de pioneirismo é a construção de uma unidade no Seridó, localizado em Caicó. A nova sede vem para beneficiar a população dos 25 municípios que compõem aquela região, de modo a interiorizar o atendimento, um sonho antigo da Liga.

Dos recursos que mantêm a Liga atualmente, cerca de 70% vêm dos serviços prestados ao Sistema Único de Saúde e os demais 30% de contribuições e convênios. O Governo do Estado ajuda nos investimentos, que também são bancados através de emendas dos parlamentares federais.

Roberto Sales revela que a grande preocupação da Liga é saber como a população será atendida daqui a uma ou duas décadas. “Tem de continuar sendo assistida como é hoje, com padrão de qualidade, pois somos uma entidade de referência não só no Nordeste, mas para grande parte do país, com um tratamento de alto padrão”, alerta.

Embora nem todos necessitem de radioterapia, a tendência é que a procura pelo serviço aumente. Ainda segundo Sales, o principal motivo é o processo de envelhecimento natural da população, por conta do aumento da expectativa de vida, que gera a consequente multiplicação da demanda por tratamentos oncológicos.

Dona Maria Janilda, 59, vem de Pedro Velho a Natal uma vez por mês para realizar seu tratamento de quimioterapia. Ela é portadora de câncer de mama e sempre passa três dias na capital para se tratar. Dona Janilda diz se apoiar na fé em Deus para prosseguir com confiança em seu tratamento e agradece o acolhimento que lhe é dado na unidade. “É tudo muito bom. Só tenho a agradecer a eles todos”, disse.

Para o técnico em radiologia, Adailton Leandro, a meta da Liga é “ser reconhecida como centro nacional de referência no tratamento, ensino e pesquisa em oncologia até o ano de 2020”. Para tal, a entidade aposta mais uma vez no otimismo e no bom relacionamento com os pacientes e com a sociedade.

Em Oncologia jamais será possível separar a ciência da arte, a razão do instinto, e o dado biológico das emoções. A técnica, ainda que muito avançada, não superará a grande missão de humanidade do médico. Existe uma cumplicidade entre o paciente oncológico e o médico, talvez a mais profunda em toda a medicina.



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